Já há muito tempo que o mundo acelera para velocidades loucas. Desde a revolução a industrial que temos muitas coisas para fazer… e muito mais coisas por fazer. E o stress sempre a aumentar.

A emancipação da mulher aumentou ainda mais o ritmo. Durante várias gerações continuaram a tomar conta dos filhos quase sozinhas enquanto trabalhavam. Mais stress para estas heroínas mais as suas 1001 tarefas para fazer ao longo do dia. Conciliar carreira, casa, família…Como conseguiram?

Com o tempo as tarefas foram sendo repartidas pelo casal mas isto não chegou para abrandar o ritmo. A globalização acelerou e tínhamos mais coisas para ver, mas coisas para conhecer e mais coisas para ter.

Agora chegou a era da informação, o tempo do digital. E nesta época a velocidade é alucinante. Temos tanto para saber, experimentar e descobrir que acabamos por ficar ansiosos pelo que estamos a perder. São milhões de blogues, sites e fóruns onde podemos aprender tudo. São novas oportunidades e ferramentas que nos obrigam a adaptar e readaptar constantemente. São as redes sociais e as suas atualizações, notificações, estados, reacções, comentários e gostos que nos ocupam durante o dia inteiro. Temos 1000 vezes mais filmes para ver, séries para seguir ou músicas para ouvir. O fluxo de informação é tão grande e a diversidade tão extensa que, se não gostarmos do que estamos a ler ao fim de 3 segundos, mudamos de página pois não temos tempo a perder: há ainda muito para absorver.

Levantamo-nos e procuramos o telemóvel, tomamos o pequeno-almoço a olhar para o smartphone, chegamos ao trabalho com pressa que o Windows carregue para ver se alguma novidade aconteceu. Durante o dia, nas viagem de regresso, ao jantar e antes de deitar: nunca perdemos o olho dum dispositivo que nos liga (há quem diga que nos desliga) do mundo.

Esta velocidade assombrosa de informação que temos de assimilar associada ao resto da nossa vida em sociedade: ir ao ginásio, vestir bem, ter estatuto, comer, estar com amigos, ir a festas, sair à noite, passear, viajar ou trabalhar deixa-nos sem tempo para parar e pensar no que andamos realmente a fazer. Estudos mostram que muitos de nós dão um suspiro quando entram no elevador: vamos ficar sem rede e já nem conseguimos aceitar isso, nem que seja entre dois andares. Ficamos nervosos quando a bateria do telemóvel está a chegar ao fim: levantamos imediatamente a cabeça à procura de alguém salvador com um carregador compatível. Enfim, parece que não nos conseguimos desligar.

A pergunta que se pode colocar é: Será que estamos preparados para lidar com tanta velocidade, tanta informação e tanta procura por tanta coisa? Não precisaremos nós de descansar? Assim como quando o nosso computador fica lento e fazemos reset, também os nossos cérebros não precisarão de reiniciar? Não precisamos nós de “deixar ir”, de restabelecer e de nos reencontrar?

Se calhar precisamos. Por isso cada vez mais pessoas tentam encontrar um refúgio, um momento de pausa, uma conexão com algo. A procura por ensinamentos, técnicas e terapias que nos ajudam a relaxar e a ficar em harmonia com nós mesmos atinge números nunca vistos. O Yoga, o Reiki, a meditação, o mindfulness entre outros têm cada vez mais adeptos e seguidores. São como portos de abrigo para a loucura dos dias de hoje.

A Google introduziu recentemente serviços de meditação e Yoga para os seus colaboradores: esgotaram imediatamente. Há um vídeo no Youtube com mais de 1 000 000 de visualizações que mostra, apenas e só, um homem sentado à lareira com uma garrafa de whisky. Os habitantes das cidades procuram o campo para viver e trabalhar. Em grandes cidades começam a ser moda estabelecimentos onde um café demora 10 minutos a ser feito. Restaurantes “slow food” começam a ser comuns um pouco por todo o lado. Há spas e ginásios com novas abordagens com vista ao relaxamento e redução da ansiedade. Ou seja, se calhar estamos a assistir ao aparecimento duma nova tendência que pode chamar-se “mais devagar”, “desligar” ou “zen” (em inglês “Slowness”). Qualquer palavra que seja o contrário de strss e de velocidade.

O Universo, a Terra e a vida fazem-se de equilíbrios. As forças, os ecossistemas e o clima equilibram-se constantemente de modo a manter a estabilidade. Nas nossas vidas procuramos manter o equilíbrio entre a diversão e o descanso, o trabalho e a família, o poupar e o investir, o limite e o exagero: Provavelmente, duma maneira ou outra, todos temos falta de equilíbrio em alguma coisa. Se nos sentimos com uns quilos a mais fazemos exercício. Se estamos tristes vamos fazer compras. Se estamos nervosos berramos ou vamos para o ginásio “desgastar”.

Este aparecimento do “Slowness”, mais do que uma moda, parece ser uma tendência que vem corrigir a instabilidade criada pela velocidade vertiginosa com que vivemos os nossos dias. Algo dentro de nós está a pedir pausa apesar dos nossos vícios gritarem por “rápido”. Algo dentro de nós parece procurar o sentido da vida e para isso temos que reiniciar.

Esta tendência foi captada mais cedo por quem esteve atento e observou o comportamento do consumidor. As marcas que têm uma interação profunda com os seus clientes conseguem detetar as suas ânsias e as suas preocupações (lembram-se do meu último post?). Quem detetou esta necessidade primeiro ganhou terreno e pôde criar bens e serviços para colmatar esta falta. No entanto ainda há tempo para as empresas direccionarem o seu foco para este “desligar”. Podem criar ou incorporar características nos seus produtos que digam aos consumidores algo como: “Não se preocupe. Pare. Relaxe. Tenha tempo para si. Nós tratamos de tudo!”. Quer seja um projeto de agricultura chave na mão, um fim de semana de total “desligamento num hotel” ou um produto alimentar com um ingrediente que ajuda a relaxar. E estes são só 3 exemplos…

Duarte Cardoso

8-5-2016

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